João Bêrnardino

Livros

Confissões, de Santo Agostinho: resumo e os 13 livros

Capa do livro Confissões, de Santo Agostinho
Livro
Confissões
Autor
Santo Agostinho
Editora
Penguin-Companhia
Pra quem
Quem lê filosofia, história ou religião
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Em resumo

Confissões é o livro em que Agostinho de Hipona, no fim do século 4, narra a própria vida até a conversão e depois reflete sobre memória, tempo e criação. A tese: a inquietação humana só encontra repouso quando se volta para Deus, e a busca de si passa pela interioridade. Aqui estão o resumo dos 13 livros, o contexto histórico, as 7 lições, as críticas e pra quem a obra serve.

Quem é Santo Agostinho

Agostinho de Hipona (354-430) nasceu em Tagaste, na província romana da Numídia, onde hoje fica a Argélia. Filho de Patrício, um pagão, e de Mônica, cristã, estudou retórica em Cartago e fez carreira como professor em Cartago, Roma e Milão. Durante cerca de nove anos seguiu o maniqueísmo, uma religião dualista que explicava o mundo como luta entre bem e mal. Em Milão, sob influência do bispo Ambrósio e da leitura de filósofos neoplatônicos, converteu-se ao cristianismo em 386 e foi batizado na Páscoa de 387.

De volta à África, tornou-se padre e depois bispo de Hipona, cidade onde morreu em 430, durante o cerco dos vândalos. Escreveu uma obra enorme, com destaque para A Cidade de Deus e A Trindade, e é considerado um dos pensadores mais influentes da história do Ocidente, tanto na teologia quanto na filosofia. As Confissões foram escritas entre 397 e 400, quando ele já era bispo. A edição da Penguin-Companhia, de 2017, tem tradução de Lorenzo Mammì, professor de filosofia da USP, e 416 páginas.

A ideia central

Confissões não é uma autobiografia no sentido moderno. O livro inteiro é escrito como uma longa oração dirigida a Deus, e a palavra "confissão" tem dois sentidos: admitir os próprios erros e louvar. Agostinho conta a vida para mostrar como foi conduzido, entre desvios, até a fé.

A tese que abre e atravessa a obra é que o ser humano é inquieto por natureza e só encontra repouso em Deus. Numa tradução livre da frase mais famosa do livro: "nosso coração é inquieto enquanto não repousa em ti."

A segunda ideia é filosófica e explica por que o livro é lido também fora da religião: a verdade se busca olhando para dentro. Agostinho inaugura uma forma de pensar baseada na observação fina dos próprios motivos, desejos e lembranças. Os temas de memória, tempo e vontade dividida influenciaram de Descartes à psicologia moderna.

Resumo livro por livro

A obra é dividida em 13 livros, que funcionam como capítulos. No original, eles não têm título: são numerados de I a XIII. Os nove primeiros são autobiográficos; os quatro últimos são reflexões filosóficas e teológicas. As descrições abaixo são minhas.

Livro I

Agostinho começa louvando a Deus e perguntando como é possível invocá-lo. Depois reconstrói a primeira infância, a partir do que observa em bebês e do que ouviu contar, e conclui que mesmo a criança pequena já mostra ciúme e vontade de dominar. Conta como aprendeu a falar, como apanhava na escola e odiava o grego. Critica a educação da época, que o fazia chorar pela morte de Dido, personagem de Virgílio, e ignorar a própria alma. É o livro da frase sobre o coração inquieto.

Livro II

Aos 16 anos, Agostinho passa um ano ocioso em Tagaste enquanto a família junta dinheiro para mandá-lo estudar. Ele descreve a desordem dos desejos da adolescência e um episódio que se tornou célebre: o roubo de peras do pomar de um vizinho, com amigos. Não tinha fome e as peras nem eram boas; jogaram quase tudo aos porcos. A análise do episódio é fina: ele conclui que roubou pelo prazer do proibido e pela companhia, e que sozinho não teria feito.

Livro III

Em Cartago, Agostinho estuda retórica, vive intensamente e frequenta o teatro, que ele critica por fazer as pessoas gostarem de sofrer por ficção. Aos 19 anos, lê o Hortênsio, de Cícero, e desperta para o amor à sabedoria. Tenta ler a Bíblia, acha o texto pobre perto de Cícero e adere ao maniqueísmo. O livro termina com Mônica, a mãe, sofrendo pelo filho e tendo um sonho que ela interpreta como promessa da conversão dele.

Livro IV

Dos 19 aos 28 anos, Agostinho ensina retórica, vive com uma companheira com quem tem um filho, Adeodato, e se interessa por astrologia. Em Tagaste, perde um amigo muito próximo e mergulha num luto que ocupa algumas das páginas mais humanas do livro. Ele reflete sobre a amizade e sobre o erro de amar o que é mortal como se não fosse morrer. Também menciona um tratado que escreveu nessa época sobre o belo e o adequado, hoje perdido.

Livro V

Aos 29 anos, Agostinho finalmente encontra Fausto, bispo maniqueísta muito esperado, e se decepciona: Fausto fala bem, mas não responde às perguntas que importam. A fé no maniqueísmo começa a ruir. Ele se muda para Roma, onde os alunos eram mais disciplinados mas pagavam mal, e depois para Milão, como professor oficial de retórica. Lá conhece o bispo Ambrósio e vai ouvi-lo primeiro por interesse profissional, pela eloquência, e aos poucos pelo conteúdo.

Livro VI

Em Milão, Mônica chega e Agostinho se aproxima do catolicismo, embora ainda cheio de dúvidas e ambições. Ele observa Ambrósio lendo em silêncio, algo que o impressiona. Conta a história do amigo Alípio, que jurou não se deixar levar pelos combates de gladiadores e acabou fascinado por eles. Um casamento é arranjado, a companheira de muitos anos é mandada de volta à África, e Agostinho se descreve como escravo dos próprios desejos. É o livro da vontade presa.

Livro VII

O grande problema intelectual de Agostinho é o mal: se Deus é bom, de onde ele vem? A leitura de livros dos filósofos neoplatônicos muda a forma como ele pensa Deus, que deixa de ser algo material, e o mal, que passa a ser entendido como ausência de bem, e não como substância. Ele descreve uma subida interior em direção à verdade. Mas conclui que os filósofos veem o destino sem conhecer o caminho, e se volta para as cartas do apóstolo Paulo.

Livro VIII

O livro da conversão. Simpliciano conta a Agostinho a conversão pública do retórico Mário Vitorino. Depois Ponticiano fala da vida de Santo Antão e de homens que largaram tudo depois de lê-la. Agostinho entra em crise: sabe o que quer, mas não consegue querer por inteiro. No jardim, em lágrimas, ouve uma voz de criança que parece mandar pegar e ler, abre as cartas de Paulo no capítulo 13 de Romanos e decide mudar de vida. Alípio o acompanha.

Livro IX

Agostinho deixa o ensino de retórica e se retira com amigos numa casa de campo em Cassicíaco. Na Páscoa de 387, é batizado por Ambrósio em Milão, junto com Alípio e o filho Adeodato. Na viagem de volta à África, em Óstia, ele e Mônica têm uma conversa à janela que termina numa experiência mística compartilhada. Dias depois, Mônica adoece e morre. O livro fecha com o luto e uma homenagem comovida à mãe. Aqui termina a parte autobiográfica.

Livro X

Agostinho passa do passado para o presente: quem ele é agora, como bispo, no momento em que escreve. A maior parte do livro é uma investigação sobre a memória, que ele descreve como vastos palácios onde guardamos imagens, conhecimentos e emoções, e onde procura Deus. Depois examina as tentações que ainda enfrenta: os prazeres do corpo, a curiosidade dos olhos e o orgulho. É também o livro da célebre passagem em que ele diz ter amado tarde a beleza que buscava.

Livro XI

Partindo do primeiro versículo do Gênesis, sobre a criação do céu e da terra, Agostinho pergunta o que Deus fazia antes da criação e chega à reflexão mais famosa do livro, sobre o tempo. Ele admite que sabe o que é o tempo até alguém perguntar. Conclui que o passado e o futuro só existem na mente, como memória e expectativa, e que o tempo é uma espécie de distensão da alma. É uma das análises mais citadas da história da filosofia.

Livro XII

Agostinho continua a leitura do Gênesis e discute o que significam o céu e a terra criados no princípio, e a matéria sem forma de que o mundo teria sido feito. Grande parte do livro trata de interpretação: como lidar com leituras diferentes do mesmo texto sagrado. A posição dele é generosa: várias interpretações podem ser verdadeiras, desde que respeitem a verdade e a caridade. É um livro técnico, mas importante para a história da hermenêutica.

Livro XIII

O último livro faz uma leitura alegórica dos dias da criação no Gênesis. Agostinho vê ali a Trindade, a Igreja, os sacramentos e a vida espiritual. O firmamento, as águas, as luzes do céu e os animais viram imagens da relação entre Deus e as pessoas. A obra termina com o sétimo dia, o descanso de Deus, e com o desejo de que também o ser humano encontre repouso nele, fechando o círculo aberto no Livro I com o coração inquieto.

As 7 principais lições

  1. A inquietação faz parte da condição humana. Agostinho não trata o vazio como defeito, mas como sinal de uma busca.
  2. Conhecer a si mesmo exige olhar para dentro. A interioridade é o caminho para a verdade, e não uma fuga dela.
  3. A vontade pode estar dividida. Saber o que é certo e não conseguir querer por inteiro é uma experiência que ele descreve com precisão rara.
  4. O mal é ausência de bem. Essa ideia muda a forma de pensar o problema do mal e tem peso até hoje na filosofia.
  5. Companhia molda comportamento. O roubo das peras mostra como o grupo nos leva a fazer o que sozinhos não faríamos.
  6. O tempo vive na mente. Passado e futuro existem como memória e expectativa, uma intuição que antecipa discussões modernas.
  7. Honestidade sobre os próprios erros é ponto de partida. O livro é a prova de que admitir falhas pode ser forma de crescimento.

Críticas e limitações do livro

É um livro de fé, escrito por um bispo, como oração. Quem não compartilha dessa fé vai encontrar passagens que parecem estranhas ou repetitivas, com longos trechos de louvor e citações dos Salmos. Isso não é defeito, é o gênero da obra, mas exige disposição do leitor moderno.

Alguns pontos pesam mais hoje. A forma como Agostinho trata a sexualidade, sempre ligada ao pecado e à escravidão dos desejos, influenciou séculos de moral cristã e é criticada por muitos leitores atuais, inclusive dentro do cristianismo. A companheira com quem viveu por mais de dez anos e teve um filho nem tem o nome registrado no livro, e sua saída é narrada do ponto de vista dele. A visão da infância como já marcada por egoísmo também é discutível.

Por fim, a estrutura surpreende quem espera uma autobiografia completa. A narrativa pessoal termina no Livro IX, e os quatro últimos livros mudam de gênero, passando a um exercício filosófico e exegético bem mais difícil. Muitos leitores param antes, e perdem justamente a reflexão sobre a memória e o tempo.

Pra quem é e pra quem não é

Pra quem é: quem se interessa por filosofia, história, literatura ou religião. Leitores cristãos que querem conhecer um dos textos mais importantes da tradição. Leitores não religiosos que querem entender a origem de temas como interioridade, memória, tempo e vontade.

Pra quem não é: quem procura um livro de autoajuda com aplicação imediata. Quem não tem paciência pra textos antigos, com ritmo de oração e referências bíblicas constantes.

Vale a pena ler?

Vale muito. É uma das obras fundadoras do Ocidente e continua legível, mais de 1.600 anos depois, porque trata de coisas que não mudaram: desejo, amizade, luto, ambição, culpa e busca de sentido. Os Livros VIII, IX e XI são os mais fortes. O VIII tem uma das descrições mais honestas de conflito interno já escritas, o IX tem a morte de Mônica e o XI tem a reflexão sobre o tempo.

Pra quem nunca leu filosofia antiga, a dica é começar pelos nove primeiros livros, sem pressa, e deixar os quatro finais para uma segunda leitura. Quem se interessa pelo tema do sentido pode ler em paralelo a resenha de Em Busca de Sentido, de Viktor Frankl, que trata da mesma pergunta num contexto do século 20. E a resenha de 12 Regras para a Vida mostra como um psicólogo contemporâneo ainda recorre a textos religiosos para falar de ordem e responsabilidade.

Minha nota: 5 de 5 pra quem lê filosofia, história ou religião e quer um dos livros que mais moldaram o pensamento ocidental.

Perguntas frequentes

Quais são os livros (capítulos) de Confissões?

Confissões tem 13 livros, numerados de I a XIII e sem títulos no original. Os Livros I a IX contam a vida de Agostinho da infância à conversão e à morte da mãe. Os Livros X a XIII tratam de memória, tempo e da criação do mundo no Gênesis.

Qual o resumo de Confissões, de Santo Agostinho?

Confissões é o relato, escrito como oração, em que Agostinho de Hipona narra sua juventude, a adesão ao maniqueísmo, a carreira de professor de retórica e a conversão ao cristianismo em 386. Depois reflete sobre memória, tempo e o sentido da criação.

O livro Confissões fala sobre o quê?

Fala da busca de Agostinho por verdade e sentido, dos erros da juventude à conversão. Também traz reflexões filosóficas sobre o mal, a vontade dividida, a memória e o tempo.

Quem foi Santo Agostinho?

Agostinho de Hipona (354-430) foi um filósofo e teólogo nascido no norte da África romana. Professor de retórica convertido ao cristianismo, tornou-se bispo de Hipona e escreveu obras como Confissões e A Cidade de Deus.

Qual a melhor tradução de Confissões?

Há várias edições em português. A da Penguin-Companhia, de 2017, tem tradução de Lorenzo Mammì, professor de filosofia da USP. Outras editoras, como a Paulus, também publicam a obra.

Confissões tem em PDF para download?

A versão legal é o livro físico ou o digital vendido nas lojas oficiais. O PDF gratuito de edições recentes costuma ser cópia sem autorização; o texto latino original, por ser antigo, está em domínio público.

Confissões vale a pena?

Vale pra quem se interessa por filosofia, história ou religião, e também pra leitores não religiosos curiosos sobre a origem de temas como memória e tempo. Exige paciência com o ritmo de oração do texto.

Confissões é a primeira autobiografia?

Confissões é considerada a primeira grande autobiografia da literatura ocidental. Mas não é uma autobiografia completa: a narrativa termina por volta de 387, e Agostinho viveu e escreveu por mais de quarenta anos depois disso.

Fontes

Ver as 3 fontes

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