João Bêrnardino

Zero Nóia

Maconha faz mal? O que a ciência sabe, sem sermão

Em resumo

Maconha pode fazer mal, e o risco depende de quanto, desde quando e de que potência. Cerca de 3 em cada 10 pessoas que usam têm transtorno por uso (CDC). Aqui estão os riscos com o grau de evidência de cada um: dependência, ansiedade, memória, psicose e adolescência. Sem exagero e sem apologia.

Maconha pode fazer mal, sim, e o tamanho do risco depende de frequência, potência e da idade em que você começou. Cerca de 3 em cada 10 pessoas que usam cannabis têm transtorno por uso (CDC), e o uso diário está associado a mais psicose, mais prejuízo de memória e atenção e mais ansiedade social (NASEM, 2017). Não é veneno pra todo mundo, nem planta inofensiva: é uma substância com riscos medidos.

Parei a maconha em 01/01/2024. Meu uso era esporádico, não diário, e mesmo assim eu quis parar antes de parar o cigarro, seis dias depois. Não escrevo pra te julgar. Escrevo porque as duas versões que circulam, "destrói o cérebro" e "não faz nada", são mentira, e quem usa percebe o exagero na hora.

Como ler os riscos sem cair em exagero

Em 2017, as Academias Nacionais de Ciências dos Estados Unidos (NASEM) revisaram tudo o que havia sobre cannabis e classificaram cada conclusão pelo peso da evidência. É a régua mais honesta que existe, e é a que eu uso aqui:

Risco Grau de evidência Fonte
Esquizofrenia e outras psicoses Substancial, maior com uso frequente NASEM, 2017
Acidentes de trânsito Substancial NASEM, 2017
Tosse, catarro e bronquite crônica (uso fumado, longo prazo) Substancial NASEM, 2017
Menor peso ao nascer (uso na gestação) Substancial NASEM, 2017
Prejuízo de aprendizagem, memória e atenção (logo após usar) Moderado NASEM, 2017
Ansiedade social (uso regular) Moderado NASEM, 2017
Pequeno aumento de risco de depressão Moderado NASEM, 2017

"Associação" não quer dizer que a maconha causa aquilo em todo mundo que usa. Quer dizer que, em quem usa, aquilo aparece mais. É diferente, e importa.

Dependência: vicia, sim

A pergunta "maconha vicia?" tem resposta com número. Cerca de 3 em cada 10 pessoas que usam cannabis têm transtorno por uso (CDC). Quem começa antes dos 18 anos tem de 4 a 7 vezes mais chance de desenvolver esse transtorno do que quem começa adulto (NIDA).

Os fatores que mais pesam, com evidência substancial: começar cedo, usar com mais frequência, ser homem e fumar cigarro junto (NASEM, 2017).

Os sinais que o CDC lista:

  • usar mais do que pretendia;
  • tentar parar e não conseguir;
  • sentir fissura;
  • largar atividades pra usar;
  • usar em situação de risco, como antes de dirigir;
  • precisar de mais pra sentir o mesmo efeito.

Se você se reconheceu em dois ou três, não é sentença. É informação. Dependência é uma condição de saúde reconhecida no DSM-5, não um defeito de caráter.

A erva de hoje é mais forte

A concentração média de THC quase dobrou: era de 9% em 2008 e chegou a 17% em 2017 (CDC). Produtos de dispensário americanos têm em média 22%, e alguns chegam a 45% (CDC).

Isso muda a conversa. Quem fumou nos anos 2000 e diz "eu fumei a vida inteira e estou bem" estava falando de outra substância. E a potência pesa no risco mais sério da lista.

Psicose e ansiedade: o paradoxo de fumar pra acalmar

Num estudo com 11 centros europeus e 901 casos, quem usava diariamente teve cerca de 3,2 vezes mais chance de transtorno psicótico do que quem nunca usou; com cannabis de alta potência todo dia, 4,8 vezes (Di Forti e colaboradores, Lancet Psychiatry, 2019). Uma meta-análise com 66.816 pessoas achou cerca de 4 vezes mais risco entre os usuários mais pesados e cerca de 2 vezes no usuário médio (Marconi e colaboradores, Schizophrenia Bulletin, 2016).

Muita gente usa pra desligar a ansiedade. A evidência aponta mais ansiedade social no uso regular (NASEM, 2017). É o mesmo desenho que eu vi no cigarro: o alívio de curto prazo vira parte do problema de longo prazo.

E se você já tem transtorno bipolar, a cannabis piora os sintomas de mania (NASEM, 2017). Nesse caso a conversa precisa incluir o seu psiquiatra.

Memória, atenção e o cérebro que ainda está se formando

A meta-análise de 69 estudos com adolescentes e adultos jovens achou um déficit cognitivo pequeno em quem usa com frequência (Scott e colaboradores, JAMA Psychiatry, 2018). A parte que quase ninguém conta: depois de mais de 72 horas sem usar, esse déficit diminui (Scott e colaboradores, 2018).

Então a frase certa não é "a maconha destrói o cérebro". É outra: a cabeça fica mais lenta enquanto você usa com frequência, e começa a voltar quando você para.

A adolescência é o caso especial. O cérebro segue se desenvolvendo até por volta dos 25 anos (CDC). Adolescentes que usam têm mais dificuldade de memória, aprendizagem e atenção e mais chance de abandonar o ensino médio ou não terminar a faculdade (CDC). No Brasil, 13% dos estudantes de 13 a 17 anos já usaram alguma droga ilícita (IBGE, PeNSE 2019).

Por que eu parei, e o que isso não prova

Meu uso nunca foi diário. Parei a maconha em 01/01/2024 e o cigarro em 07/01/2024, com seis dias de distância. Foi a ordem que funcionou pra mim, e não tenho como afirmar que seria a sua.

O que eu posso afirmar é o erro: achei que, sem a maconha e sem o cigarro, eu estaria "limpo". Em 2 semanas o doce tinha virado o novo cigarro depois do almoço. O cérebro procura a próxima recompensa rápida, e se você não escolhe qual, ele escolhe.

Não sou médico. Sou pós em Neurociências e Comportamento (PUCRS). Meu relato é amostra de uma pessoa. Se você quer parar, o caminho está em como parar de fumar maconha, e o que esperar dos primeiros dias está em abstinência de maconha.

Regraa pergunta útil não é se maconha faz mal, é se ela está fazendo mal pra você agora.

Quando procurar ajuda

Não existe remédio aprovado pra dependência de maconha; nenhum se mostrou melhor que placebo (Nielsen e colaboradores, Cochrane, 2019). O que tem evidência é tratamento psicossocial, como terapia cognitivo-comportamental e entrevista motivacional (Gates e colaboradores, Cochrane, 2016).

Procure ajuda se:

  • você tentou parar e não conseguiu;
  • teve paranoia, alucinação, confusão ou fala desorganizada depois de usar: isso é urgência;
  • a tristeza ou a ansiedade não melhoram depois das primeiras semanas sem usar;
  • tem depressão, bipolar ou esquizofrenia na história pessoal ou da família;
  • está grávida.

Canais:

  • CAPS AD (álcool e outras drogas): serviço do SUS, porta aberta, sem encaminhamento e sem agendamento.
  • CVV 188: se vier desesperança ou pensamento de se machucar. Gratuito, 24 horas.
  • SAMU 192: crise psicótica, confusão forte, qualquer emergência.
  • Disque Saúde 136: se você também fuma tabaco, orienta o tratamento gratuito do SUS pela UBS, com aconselhamento e, quando indicado, adesivo, goma e bupropiona, sempre com avaliação médica.

Perguntas frequentes

Quem tem ansiedade pode fumar erva?

O uso regular está associado a mais ansiedade social (NASEM, 2017), e a alta potência aumenta o risco de reação ruim. Se você tem transtorno de ansiedade, converse com o médico que te acompanha antes de usar.

Maconheiro é dependente químico?

Nem todo mundo que usa é dependente. Cerca de 3 em cada 10 têm transtorno por uso (CDC). O que define são os sinais: não conseguir parar, fissura, largar coisas pra usar, precisar de mais pro mesmo efeito.

Como fica o cérebro de quem fuma maconha?

Com uso frequente, a memória e a atenção ficam um pouco piores; o efeito é pequeno e diminui depois de mais de 72 horas sem usar (Scott e colaboradores, JAMA Psychiatry, 2018). Em adolescentes o risco é maior, porque o cérebro se forma até por volta dos 25 anos (CDC).

Maconha causa esquizofrenia?

Há evidência substancial de associação, maior com uso frequente (NASEM, 2017). No uso diário de alta potência, o risco de transtorno psicótico foi 4,8 vezes o de quem nunca usou (Di Forti e colaboradores, 2019).

É bom dormir chapado?

Quem dorme com maconha todo dia costuma sentir o preço ao parar: o sono é o sintoma de abstinência que mais demora pra voltar, às vezes mais de um mês (Bonnet e Preuss, 2017). Não é descanso de graça.

Qual a droga que mais usam no mundo?

A cannabis: 244 milhões de usuários em 2023 (UNODC, 2025). No Brasil, 7,7% das pessoas de 12 a 65 anos já usaram maconha na vida (Fiocruz, III LNUD, 2015).

Fontes

Ver as 14 fontes
  • CDC, Cannabis use disorder: https://www.cdc.gov/cannabis/health-effects/cannabis-use-disorder.html
  • CDC, Cannabis and teens: https://www.cdc.gov/cannabis/health-effects/cannabis-and-teens.html
  • NIDA, Is marijuana addictive?: https://www.drugabuse.gov/publications/research-reports/marijuana/marijuana-addictive
  • NASEM, 2017, The Health Effects of Cannabis and Cannabinoids, conclusões: https://nap.nationalacademies.org/resource/24625/Cannabis_committee_conclusions.pdf
  • Di Forti e colaboradores, Lancet Psychiatry, 2019: https://www.thelancet.com/journals/lanpsy/article/PIIS2215-0366(19)30048-3/fulltext
  • Marconi e colaboradores, Schizophrenia Bulletin, 2016: https://academic.oup.com/schizophreniabulletin/article/42/5/1262/2413827
  • Scott e colaboradores, JAMA Psychiatry, 2018: https://jamanetwork.com/journals/jamapsychiatry/fullarticle/2678214
  • Bonnet e Preuss, 2017, revisão sobre abstinência de cannabis: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5648025/
  • Nielsen e colaboradores, Cochrane, 2019, remédios para transtorno por uso de cannabis: https://www.cochranelibrary.com/cdsr/doi/10.1002/14651858.CD008940.pub3/full
  • Gates e colaboradores, Cochrane, 2016, intervenções psicossociais: https://www.cochranelibrary.com/cdsr/doi/10.1002/14651858.CD005336.pub4/information
  • IBGE, PeNSE 2019: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/media/com_mediaibge/arquivos/ad542e8a6ea81cd154e61fc7edf39d00.pdf
  • Fiocruz, III Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas, 2015: https://www.arca.fiocruz.br/bitstream/icict/34614/1/III%20LNUD_PORTUGU%C3%8AS.pdf
  • UNODC, World Drug Report 2025: https://www.unodc.org/documents/data-and-analysis/WDR_2025/Press_release_WDR_2025_English.pdf
  • Prefeitura de São Paulo, CAPS AD: https://prefeitura.sp.gov.br/web/saude/w/caps-ad-atuam-no-acolhimento-de-pessoas-com-uso-abusivo-de-%C3%A1lcool-e-outras-drogas

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