João Bêrnardino

Zero Nóia

Como parar de fumar maconha: o que mudou quando eu parei em 2024

Em resumo

Parei a maconha em 01/01/2024 e o tabaco em 07/01/2024, com 6 dias de diferença. O uso era esporádico. Este texto é o que eu notei nas duas primeiras semanas (sono, apetite, humor), marcado como relato, e o que a literatura descreve sobre abstinência de cannabis. Sem moralismo, sem promessa.

1º de janeiro de 2024

Parei de fumar maconha na virada de 2023 pra 2024. Segunda-feira, dia 1º. Não teve fundo do poço, não teve intervenção de família, não teve clínica. Teve um cara de 25 anos cansado de começar o ano igual ao anterior.

Este não é um texto contra maconha. É o que aconteceu comigo quando parei, com data, e o que a ciência descreve sobre isso. Quem quiser moral procura em outro lugar.

O que era o meu uso

Esporádico. Não era todo dia, não era de manhã, não era pra funcionar. Era fim de semana, com amigos, à noite, e às vezes uma semana inteira sem. Junto com o tabaco, que esse sim era diário (11 anos).

Digo isso porque muda tudo o que vem depois. A literatura sobre abstinência de cannabis fala de uso intenso e prolongado. O meu não era. Então parte do que eu senti pode ter sido abstinência e parte pode ter sido só janeiro, calor e ansiedade de quem decidiu mudar. Eu não consigo separar, e não vou fingir que consigo.

As duas primeiras semanas: relato

Tudo abaixo é relato meu, sem instrumento, sem diário formal na época.

Sono. Nos primeiros 4 ou 5 dias demorei mais pra pegar no sono e sonhei muito, com sonho vívido, daqueles que você acorda cansado. Por volta do dia 10 o sono ficou mais leve de pegar e mais pesado de dormir. Foi a mudança mais clara.

Apetite. Sumiu a fome da noite. Não a fome de jantar, a outra, a que aparece às 23h e come qualquer coisa. Comi menos porcaria e mais no horário. Não pesei nada, então não tenho número.

Humor. Irritado nos 3 primeiros dias, uma irritação de quem está esperando alguma coisa e ela não vem. Do dia 7 em diante, mais estável do que eu estava em dezembro. Sem euforia, sem depressão. Só menos oscilação.

O que eu não senti: tremor, suor, dor, nada físico forte. E eu sei que tem gente que sente.

O que a literatura descreve

A abstinência de cannabis entrou no DSM-5 em 2013 (American Psychiatric Association, 2013) como síndrome reconhecida, depois de anos de discussão. O manual descreve que, após parar um uso intenso e prolongado, aparecem em cerca de uma semana pelo menos 3 destes sinais: irritabilidade ou raiva, nervosismo ou ansiedade, dificuldade pra dormir (inclusive sonhos perturbadores), queda de apetite ou peso, inquietação, humor deprimido, e sintomas físicos como dor abdominal, tremor, suor, febre ou dor de cabeça.

O trabalho que embasou isso foi de Budney e colegas (2004): os sintomas costumam começar 1 a 2 dias após a parada, ter pico entre o dia 2 e o dia 6, e a maior parte passa em 1 a 2 semanas. Sono é o que tende a demorar mais.

Uma meta-análise recente estimou que quase metade (47%) das pessoas com uso regular ou dependente apresenta a síndrome ao parar (Bahji, 2020). Ou seja: não é raro e não é frescura. Também não é regra.

Batendo com o meu relato: sono, apetite e irritação estavam na lista. A ordem e a duração também. Mas eu era um usuário esporádico, e o critério do DSM-5 pede uso intenso. É possível que o meu quadro tenha sido uma versão leve. É possível que tenha sido outra coisa. Fica registrado como relato, não como diagnóstico.

Por que a maconha primeiro e o tabaco 6 dias depois

Não foi estratégia. Foi um erro de cálculo.

No dia 1º eu disse que ia parar "tudo". Achei que o cigarro ia junto, de carona, sem precisar de uma decisão própria. Não foi. A maconha era esporádica e saiu fácil. O tabaco era 11 anos de gatilho diário (café, almoço, trânsito) e não obedeceu a uma decisão genérica de réveillon. Durou 6 dias até eu entender que precisava de uma decisão só pra ele, e de uma câmera pra segurar essa decisão.

Olhando hoje, com o que estudei depois, faz sentido que tenha sido nessa ordem. O que não é hábito de todo dia se solta com uma decisão. O que é hábito de todo dia precisa de um sistema. Não foi disciplina, virou engenharia.

A história do tabaco está em Como parar de fumar.

O que mudou depois

No fim de janeiro eu dormia melhor do que em qualquer mês de 2023. Não atribuo isso só à maconha, porque o tabaco saiu na mesma semana e o treino entrou. Três variáveis mudaram de uma vez e eu não tenho como isolar nenhuma. Um engenheiro de produção sabe que esse experimento é mal desenhado. Foi o que deu pra fazer na época.

Um ano depois, quando a poeira baixou, fiz pós em Neurociências e Comportamento na PUCRS. Boa parte do que está neste texto eu só consegui nomear ali.

Por que eu não te prometo o mesmo

Sou uma pessoa (1) com uso esporádico, sem transtorno diagnosticado, sem uso de outras substâncias, com treino e trabalho estáveis. Quem usa todo dia, há anos, ou usa pra dormir, pra comer ou pra aguentar o dia, está em outro lugar, e nesse lugar o que eu vivi não serve de mapa.

Procure um médico ou um psiquiatra se, ao parar, a ansiedade ou o humor deprimido durarem mais de duas semanas, se aparecer pensamento de se machucar, se você não conseguir dormir por vários dias seguidos, ou se a maconha estava cobrindo alguma coisa (insônia crônica, dor, pânico) que agora ficou exposta. No SUS, o CAPS AD atende sem custo. Não é fraqueza, é o caso em que profissional faz diferença.

O que virou o Zero Nóia

Dessa semana entre o dia 1º e o dia 7 nasceu o que depois virou o Zero Nóia: o meu registro, dia a dia, do que eu fiz pra parar. Vivência organizada, não protocolo. A história completa está em Zero Nóia.

Regrao que é esporádico sai com uma decisão. O que é diário sai com um sistema. Saber qual é o seu caso vem antes de qualquer data.

Leia também

Receba o que eu aprendo

Cadastre seu melhor e-mail para ter acesso ao meu conhecimento.