Abstinência de maconha: sintomas e quanto tempo dura
A abstinência de maconha começa em 24 a 48 horas, tem pico entre os dias 2 e 6 e, na maioria das pessoas, passa em 1 a 2 semanas; o sono é o que mais demora. Quase metade de quem usa com frequência sente sintomas ao parar (47%). Aqui está o cronograma dia a dia, o que é normal e quando procurar ajuda.
A abstinência de maconha costuma começar entre 24 e 48 horas depois do último uso, tem pico entre o 2º e o 6º dia e, na maioria das pessoas, passa em 1 a 2 semanas (Budney e colaboradores, 2003 e 2004; Bonnet e Preuss, 2017). Os sintomas mais comuns são irritação, ansiedade, insônia, sonhos estranhos e falta de apetite (DSM-5). O sono é o que mais demora e pode ficar bagunçado por mais de um mês.
Parei a maconha em 01/01/2024. Meu uso era esporádico, não diário, e por isso eu não vou fingir que vivi o que vive quem fuma todo dia há anos. O que eu fiz foi estudar o assunto e, seis dias depois, passar por uma abstinência que eu conheço bem, a do cigarro. Este texto junta as duas coisas: o cronograma que a pesquisa descreve e o que eu aprendi atravessando a primeira semana.
É normal sentir abstinência de maconha?
É, e é mais comum do que se diz. Uma meta-análise com 47 estudos e 23.528 pessoas encontrou síndrome de abstinência em 47% de quem tinha uso regular ou dependente (Bahji e colaboradores, JAMA Network Open, 2020). A taxa muda muito conforme o grupo:
| Grupo | Tiveram abstinência ao parar |
|---|---|
| Pacientes internados | 87% |
| Pacientes em ambulatório | 54% |
| População geral que usa com frequência | 17% |
Fonte: Bahji e colaboradores, 2020.
É mais frequente em homens, em quem também fuma tabaco ou usa outras drogas e em quem usa mais (Bahji e colaboradores, 2020). Se você fuma baseado com tabaco, ou fuma cigarro também, espere uma semana mais pesada.
A mensagem que eu queria ter ouvido: o mito de que "maconha não dá abstinência" é o que faz muita gente achar que está enlouquecendo no dia 3.
Os sintomas, segundo o DSM-5
O manual de diagnóstico da psiquiatria americana define a síndrome por 3 ou mais destes sinais, surgindo em até cerca de uma semana depois de parar um uso pesado e prolongado (DSM-5):
- irritabilidade ou raiva;
- nervosismo ou ansiedade;
- dificuldade pra dormir, incluindo insônia e sonhos perturbadores;
- menos apetite ou perda de peso;
- inquietação;
- humor deprimido.
E pelo menos um sintoma físico: dor de barriga, tremor, suor, febre, calafrio ou dor de cabeça (DSM-5).
Repare no apetite. Na abstinência de nicotina a fome aumenta; na de maconha, cai (DSM-5). Quem para os dois ao mesmo tempo pode sentir as duas coisas se misturando.
Cronograma dia a dia
Os estudos que acompanharam pessoas parando são pequenos, então trate o quadro como mapa, não como relógio. Cada corpo tem seu tempo.
| Período | O que costuma acontecer |
|---|---|
| Dia 1 | Pouca coisa ou nada. Os sintomas começam entre 24 e 48 horas. |
| Dias 2 e 3 | Irritação, ansiedade, inquietação e insônia aparecem. Começa o pico. |
| Dias 4 a 6 | Ainda no pico. Alguns sintomas só surgem aqui. Sonhos vívidos e falta de apetite são comuns. |
| Semana 2 | A maioria dos sintomas cede. Humor e apetite voltam aos poucos. |
| Semanas 3 e 4 | O sono ainda pode estar alterado. |
| Depois de 1 mês | Em parte das pessoas, o sono segue diferente por mais tempo. |
Fontes: Budney e colaboradores, 2003 e 2004; revisão de Bonnet e Preuss, 2017.
A pior fase, pela pesquisa, está entre os dias 2 e 6. Se você está no dia 4 achando que não vai passar, está exatamente onde os estudos dizem que é mais difícil.
Por que o sono é o último a voltar
Os sonhos intensos assustam. Muita gente para, sonha a noite inteira com coisas vívidas e conclui que tem algo errado. Sonho perturbador é um critério do DSM-5, não sinal de doença nova.
O sono é o sintoma que mais demora, e pode seguir alterado por mais de um mês (Bonnet e Preuss, 2017). Isso cria uma armadilha: na segunda semana o resto já melhorou, a noite continua ruim, e a vontade de fumar "só pra dormir" aparece com cara de solução.
Vale uma regra simples: noite ruim não é recaída. É noite ruim.
A cabeça volta
Tem uma notícia boa escondida na pesquisa. Numa meta-análise de 69 estudos com adolescentes e adultos jovens, o déficit de memória e atenção ligado ao uso frequente diminuiu depois de mais de 72 horas de abstinência (Scott e colaboradores, JAMA Psychiatry, 2018). E há evidência moderada de melhora dos sintomas respiratórios quando a pessoa para de fumar cannabis (NASEM, 2017).
Não existe linha do tempo oficial, minuto a minuto, dos benefícios de parar a maconha, como existe pro cigarro. Não vou inventar uma.
O que eu fiz na primeira semana
Na primeira semana de 2024 eu tinha parado a maconha e, no dia 7, parei o cigarro. As ferramentas que funcionaram comigo servem pra qualquer abstinência:
- Tirei os objetos de perto no dia 1. Com o cigarro, joguei fora maço, isqueiro e cinzeiro. Quem fuma maconha sabe o equivalente: seda, dichavador, o que for.
- Água gelada na hora da vontade. A vontade passa em minutos, e ter algo na mão e na boca ajuda a atravessar.
- Treino todo dia, mesmo ruim.
- Um vídeo por dia contando como tinha sido. Prestar contas pra alguém, mesmo que seja uma câmera.
E o erro: em 2 semanas o doce tinha virado o meu novo cigarro depois do almoço. Na abstinência, o cérebro caça qualquer recompensa rápida. Escolha a sua antes que ele escolha.
Não sou médico; sou pós em Neurociências e Comportamento (PUCRS), e o que eu fiz é amostra de uma pessoa. O passo a passo pra parar está em como parar de fumar maconha, e os riscos de continuar estão em maconha faz mal. Se você está parando o cigarro junto, leia abstinência de nicotina.
Quando procurar ajuda
Não existe remédio aprovado pra abstinência ou pra dependência de maconha; nenhum se mostrou melhor que placebo (Nielsen e colaboradores, Cochrane, 2019). Desconfie de quem vende comprimido pra isso. O que tem evidência é apoio psicossocial, como terapia cognitivo-comportamental e entrevista motivacional (Gates e colaboradores, Cochrane, 2016).
Procure ajuda se:
- a tristeza ou a ansiedade não melhoram depois de 2 semanas;
- aparecem paranoia, alucinação ou confusão: isso é urgência;
- vem pensamento de se machucar;
- você também usa álcool ou outras drogas e está parando tudo junto;
- já tem depressão, bipolar ou esquizofrenia no histórico;
- tentou parar várias vezes e voltou.
Canais:
- CAPS AD: serviço do SUS pra álcool e outras drogas. Porta aberta, sem encaminhamento e sem agendamento.
- CVV 188: ligação gratuita, 24 horas, com sigilo.
- SAMU 192: emergência, crise psicótica, confusão forte.
- Disque Saúde 136: se você fuma tabaco também, orienta o tratamento gratuito do SUS pela UBS, com aconselhamento e, quando indicado, adesivo, goma e bupropiona, sempre com avaliação médica.
Perguntas frequentes
Quanto tempo dura a abstinência de maconha?
Na maioria das pessoas, 1 a 2 semanas, com pico entre os dias 2 e 6. O sono pode levar mais de um mês pra normalizar (Bonnet e Preuss, 2017).
Qual a pior fase da abstinência?
Entre o 2º e o 6º dia (Budney e colaboradores, 2003 e 2004). Depois disso, a maioria dos sintomas começa a ceder.
Como identificar uma crise de abstinência?
Três ou mais sinais depois de parar: irritação, ansiedade, insônia ou sonhos perturbadores, falta de apetite, inquietação, humor deprimido, mais um sintoma físico como dor de cabeça, suor ou tremor (DSM-5).
Quais são as etapas da abstinência?
Início em 24 a 48 horas, pico entre os dias 2 e 6, melhora ao longo da segunda semana e, por último, o sono (Bonnet e Preuss, 2017).
O que é bom para a crise de abstinência de maconha?
Não há remédio com eficácia comprovada (Nielsen e colaboradores, Cochrane, 2019). Ajuda tirar os objetos de perto, ter uma rotina pra hora da vontade, se mexer e ter com quem falar. Se estiver pesado demais, o CAPS AD atende sem agendamento.
Por que perdi a fome depois que parei de fumar maconha?
Porque menos apetite e perda de peso fazem parte da abstinência de cannabis (DSM-5). Costuma voltar ao normal junto com o resto dos sintomas.
Sonhar muito depois de parar é normal?
É. Sonhos perturbadores entram nos critérios do DSM-5 e fazem parte da alteração de sono, que é a última a passar.
Fontes
Ver as 10 fontes
- APA, DSM-5, abstinência de cannabis, via PsychDB: https://www.psychdb.com/addictions/cannabis/3-withdrawal
- Bahji e colaboradores, JAMA Network Open, 2020: https://jamanetwork.com/journals/jamanetworkopen/fullarticle/2764234
- Bonnet e Preuss, 2017, revisão sobre a síndrome de abstinência de cannabis: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5648025/
- Budney e colaboradores, American Journal of Psychiatry, 2004: https://psychiatryonline.org/doi/10.1176/appi.ajp.161.11.1967
- Scott e colaboradores, JAMA Psychiatry, 2018: https://jamanetwork.com/journals/jamapsychiatry/fullarticle/2678214
- NASEM, 2017, The Health Effects of Cannabis and Cannabinoids, conclusões: https://nap.nationalacademies.org/resource/24625/Cannabis_committee_conclusions.pdf
- Nielsen e colaboradores, Cochrane, 2019: https://www.cochranelibrary.com/cdsr/doi/10.1002/14651858.CD008940.pub3/full
- Gates e colaboradores, Cochrane, 2016: https://www.cochranelibrary.com/cdsr/doi/10.1002/14651858.CD005336.pub4/information
- Prefeitura de São Paulo, CAPS AD: https://prefeitura.sp.gov.br/web/saude/w/caps-ad-atuam-no-acolhimento-de-pessoas-com-uso-abusivo-de-%C3%A1lcool-e-outras-drogas
- CVV: https://cvv.org.br/
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